16
Ago 09

 

 


 

 

Quantos de nós não nos perguntamos constantemente: porque tudo me corre mal se eu até sou uma boa pessoa?  Porque não consigo ter o que quero se sou honesto, pago as minhas contas, aturo aquele chefe horroroso e até aguento o jantar nos sogros todos os domingos? Porque estou doente se fiz tantos sacrifícios, ajudei tanta gente, emprestei dinheiro e que nem sequer me pagaram?  Ou simplesmente porque é que não me sinto feliz quando tenho uma família amorosa, filhos saudáveis e um emprego estável ?
 
Acredito  profundamente que o verdadeiro desafio evolutivo passa pela auto estima. Não aquela auto estima do faço o que quero, mas sim aquela do faço o que sinto que devo fazer. E por mim !  passo a explicar ...


 


Resumindo uma metáfora que Deepak Chopra usa num dos seus livros, tentemos imaginar uma célula de um corpo gigante. Ela tem apenas uma função, que é desempenhar a sua função e assim ajudar o corpo gigante a  brilhar.  Apenas lhe é pedido estar no seu melhor, preocupar-se com o seu mundinho, as suas funções, o seu bem estar, a sua saúde, a sua alegria.  Eu sei que é exactamente isso que eu peço das minhas células. Se elas estiverem bem, eu estou bem, todas as células à volta dela estão bem. Se por acaso alguma célula vizinha adoecer, o melhor que ela pode fazer é brilhar ainda mais, emanar mais energia positiva, mas nunca abandonar o seu posto e ir “ajudar” a célula vizinha. 1o porque o seu posto vai perder o brilho.  Vai ser abandonado, vai perder força.  2o porque ela não faz a mínima ideia do projecto, funções, velocidade, esquema de manutenção da célula vizinha. Todas as células trazem um programa de autocura.  Se fizermos um corte na pele, passados uns dias sem fazermos nada ele fecha. Já está até comprovado por exemplo com os produtos reguladores do intestino,  ou com detergentes agressivos que matam bactérias essenciais ao equilíbrio da pele; o corpo simplesmente deixa de as fabricar se os usarmos continuamente. Fica preguiçoso, deixa de fazer o que lhe compete. Para dizer em linguagem comum, encosta-se.  Passa a ficar dependente daquela fonte exterior. Para que ela possa recuperar o seu equilibrio interno, há que dar tempo aquela célula de fazer o seu processo de autocura. Caso contrario e se a outra insiste em acudi-la temos como consequência as duas deixarem de brilhar .

 
Isto, acredito é exactamente o que se passa entre nós. Caindo na ameaça de parecer egoísta, até hoje nunca encontrei ninguém nem na vida pessoal nem em consultas que me prove que fazer pelos outros, sacrifícios, cedências e fretes trazem felicidade a alguém.
Mas alguém diz, isso não é verdade... nós sentimo-nos muito bem quando ajudamos alguém que estava mesmo mal e que ficou bem com a nossa ajuda.  Como às vezes um pequeno contributo de dinheiro pode aliviar uma situação de sufoco de alguém e tantas tantas outras.

 
Até aqui está tudo certo. Nós temos o poder sim de ajudar, aliviar, socorrer. A pergunta é, com que intenção é que o estamos a fazer?. Por experiencia posso dizer que 95% das vezes é por razões puramente egóicas  que o fazem.  Infelizmente, algo inconscientes.
 
Voltemos à historia da célula.  Fazer aquela célula brilhar é algo que envolve imensos processos de conhecimento profundo do seu funcionamento.  Para ela brilhar, ela tem que ter perfeita noção de que para já ela é uma célula, que tem uma função ou missão dentro de um Todo que é o corpo, e o que fazer, sempre que esse corpo e por tabela a célula sofrem os mais variados abalos.  Ela está sujeita a variações de temperatura, atmosfera, interacção com as outras células e outras presenças exteriores, ela está preparada para lidar com o desequilíbrio por exemplo de uma célula vizinha,  e como ser vivo que é tem uma consciência universal ligada ao corpo gigante através de sensações ás quais também sabe responder. Para que tudo funcione na perfeição ela tem que estar 100% focada nela própria  e estar atenta para corrigir qualquer possível desequilíbrio venha ele do exterior ou mesmo do seu interior.  No entanto nem todos os processos são fáceis e por vezes a manutenção da célula acarreta momentos de grande esforço, limpeza, descartar partículas velhas e por vezes até de dor.  Só muita consciência e auto estima a fará manter-se no seu posto. Mas a recompensa será  a sua auto-cura e consequentemente, o seu brilho.
Não é muito difícil de imaginar o que aconteceria se a célulazinha se fartasse do seu trabalho, não quisesse mais sentir as dores do seu processo, deixasse de assumir responsabilidade sobre as suas funções no corpo gigante e fugisse do seu posto para ir “ajudar” as células vizinhas. Afinal a dor delas não lhe dói como doía a sua. E no fim elas ainda lhe iriam agradecer por ela estar a ajudá-las.

 
Mais uma vez, isto é o que nós fazemos.  Pior, ao ajudarmos os outros estamos a alimentar um ego que de amor e entrega não sabe nada e que tudo fará para receber a sua recompensa.

Nada tenho contra seres maravilhosos como Madre Teresa, Dalai Lama, Ghandi ou tantos outros.  Esses são seres que alem de fazer todo o seu processo individual como células, tinham, como todos temos, o dom de a conseguir manter a brilhar e mesmo assim acudir as outras.

 
Mas infelizmente nós ainda estamos longe de por isto em pratica.
  
É mais fácil dar o peixe do que ensinar a pescar...
Dar o peixe faz-nos sentir bem, alimenta o nosso ego, faz-nos sentir poderosos perante quem não tem  peixe, mas passamos a ficar dependentes da necessidade que os outros passam a ter de nós.  Mais uma vez estamos a ir buscar fora o bem estar.
 
Ensinar a pescar é um trabalho altruísta em que vejo os outros não como inferiores e dependentes de mim mas como alguém igual a mim que um dia irá pescar os seus próprios peixes e sentir o bem estar e a independência de percorrer livremente o seu caminho.
 
Como podemos dar aquilo que não temos ? como podemos aconselhar o que não praticamos ?  Como podemos inspirar alguem a brilhar se nós próprios não brilhamos ?
Se seguíssemos todos os conselhos que damos, seríamos Deuses assumidos, por enquanto somos disfarçados ...


Palavras como frete, chatice, seca, sacrifício, aguentar, aturar, engolir tem que ser substituídas por prazer, gozo, entusiasmo, vontade, gosto, excitação, alegria.  Infelizmente  ainda associamos estas ultimas a egoísmo, pecado, exibicionismo ou mesmo de desequilíbrio mental ou emocional ao passo que as primeiras associamos a dever, respeito, bom senso, honra, gloria, juízo, e maturidade.
Quando estamos felizes estamos a vibrar no nosso melhor, estamos a emanar uma energia maravilhosa, temos saídas, soluções, respostas mais positivas para os outros e para a vida em geral.  Como tal a Vida não tem como não responder positivamente a nós.
Como é que queremos viver uma vida em que o primeiro conjunto de palavras estão na ordem do dia em quase todos os campos da nossa vida? e ainda esperamos ser felizes ?
Pior, este é o exemplo que estamos a dar aos nossos filhos.  E não há coisa mais importante para uns pais do que ver os seus filhos felizes. Mesmo que escolham um trabalho estranho, que vivam no estrangeiro, que não façam fortunas com o ordenado, a única coisa que no fim realmente importa é, se estão felizes . No entanto não paramos de falar em esforço, sacrifício,  ameaçamo-los de que se não tem um bom emprego ou tiram “aquele” curso ou ganham um mínimo, ou estudam mais,  não vão ser felizes.   Será que ao fim de tanto tempo ainda não percebemos que é mexendo o que está dentro que se muda o que está fora ?  que o tirar o “tal” curso, matar-se a estudar, trabalhar na tal prestigiada empresa ou mesmo ganhar um bom ordenado, não é garantia de felicidade para ninguém ?

 
Se olharmos para as nossas vidas e para a maneira como fomos educados, vemos que alguma coisa tem que mudar, ou melhor dizendo, muita coisa tem que mudar.  Até porque estas crianças de hoje trazem uma energia diferente da nossa.  Já não se vão sujeitar a fretes e sacrifícios.  Elas não se vão deixar engolir por uma ordem social que não faz sentido nenhum no que toca à felicidade e realização pessoal e espiritual de cada um.  Eles vem desestruturar, abalar com alicerces, deitar abaixo para construir de novo, seja socialmente seja na família, escola etc. E por isso dizemos que são tão difíceis.  Se conseguíssemos ver o que está por trás percebíamos que o trabalho deles é essencial, maravilhoso mas difícil.  Eles estão a desbravar o terreno que irá dar lugar à chamada idade de ouro onde apenas iremos agir por amor, por escolhas livres e conscientes, libertas de preconceitos do que está certo ou errado ou do que alguem espera deles.  Essa é a tão falada Era de Aquário.  Mas para que o novo chegue, o velho tem que sair.  E o ser humano tem nesse campo imensa dificuldade em deixar ir o velho.

 Não nos esqueçamos que muitos de nós se não todos ainda vibramos pelo medo, ainda vemos o mundo pelo hemisfério esquerdo, ainda achamos que temos que nos segurar ao que ilusoriamente conquistámos achando que “aquilo” somos nós.  Perda não é mais nem menos do que a oportunidade de relembrarmos que nós não somos “aquilo”, que não estamos cá apenas para estudar, ter um emprego, ter e pagar coisas.  Estamos cá a cumprir uma missão que independentemente de como ou onde a realizamos, é comum a todos.  Tal como cada célula tem a sua função própria, tambem nós trazemos dentro algo único e valioso que apenas a nós nos compete pôr em prática.  Trazemos uma tarefa, mensagem, capacidade, talento ou mesmo apenas uma presença capaz de transformar o mundo à nossa volta.  Cabe-nos a nós resgatá-la e honrá-la.  A frustração não vem apenas do que queremos e não conseguimos.  Vem principalmente do que viemos trazer ao mundo e ainda não o pusemos em práctica.  E isso é fácil de descobrir, quando aprendermos a brilhar.  Por mais difíceis que por vezes sejam, as perdas apenas tem a função de nos relembrar que estamos a perder o brilho.

Vera Correia

 

 

publicado por despertarparaaalma às 09:31
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